por RENATO FIGUEIREDO.
21.ABR.09
“She was already thinking of herself as a kind of expatriated not smattered by what she believed to be America’s puritan and materialistic culture, which she had little pacience for. She saw herself more like an European soul, in tune with thinkers and artists she felt expressed her magic, romantic, free thinking view of life”.
É com essa declaração que o narrador do filme “Vicky, Cristina, Barcelona”, define a personagem interpretada por Scarlett Johannson, a americana Cristina que vai passar férias na Espanha com a amiga Vicky. Ela está atrás de novas experiências e acaba encontrando em terras européias um espírito mais próximo daquilo que ela dizia sentir e buscar. “Se sente livre, conectada com os valores do espírito europeu e em sintonia com o pensamento artístico, romântico e mais livre em relação à vida”.
O filme nos serve de exemplo para mostrar que essa busca pelo “anti-americano”, por uma alternativa ao cansado american way of life, nunca esteve tão em alta – e nunca proclamada tanto por eles próprios.
NEW AMERICAN SPIRIT
A revista BoHo Magazine (bohomag.com), uma espécie de “Capricho norte-americana” com um appeal “sustentabilidade e eco-chic”, proclama ser a voz do “new american spirit” (o novo espírito americano). Com temáticas, matérias e seções totalmente perspassadas pelo tema da ecologia, sustentabilidade e também maior sinestesia, a revista parece mostrar e incitar algo parecido com o “free thinking view of life”, como tanto procura a Cristina do sarcástico Woody. “Her only fear is convention” (seu único medo são as coisas pré-estabelecidas), espiritualidade, paixão e imperfeição são valores colocados pelo “poema” que serve como “manifesto” da revista.
FILMES
É engraçado assistir a essa revalorização de paradigmas americanos. Pela primeira vez na agenda do mainstream recente, encontramos nas telonas filmes que criticam os EUA, e que são produzidos em seus próprios moldes (repleto de efeitos, atores famosos, bem produzidos e com estrutura de roteiro parecidas). Tomemos como exemplo o nem tão antigo “Independece Day”, o filme clássico de extraterrestres onde os americanos aparecem claramente como os salvadores não só da pátria, mas de todo o mundo. Já no mais recente “O Dia em que a Terra Parou”, o filme em que Keanu Reaves interpreta um extraterrestre que vem ao nosso planeta para dar um ultimato à espécie humana (que insiste em destruir o meio ambiente), o paradigma é justamente o oposto. Apesar de pouco thrilling (emocionante), ali se propõe algo que, sem exagero, poderíamos chamar de “Inversão de Paradigmas Históricos”. Pela primeira vez que tenho registro, os americanos e seu “american way of being arrogant” não vencem no final, nem vivem felizes para sempre. Os exageros das organizações militares e de investigação, que mandam helicópteros, agentes especiais e colocam em uso centros secretos de segurança não recebem mais a glória e vanglorização usuais – e sim exatamente o contrário. A personagem que representa essa força americana no filme, uma gordinha loira que é agente do governo, só faz besteira até o final e quase atrapalha tudo de terminar bem. Já em outro filme que propõe a mesma inversão, o “Rede de Mentiras” (“Body of Lies”) do diretor Ridley Scoot, é Russel Crowe quem representa essa mesma América exagerada e vencida, e desta vez perde para o bom jovem Leo diCaprio, que cansa de todo o “esquemão” americano de trabalho e desumanidade e fica morando no Oriente Médio.
A crítica não é nova, e já existe desde muito antes até dos icônicos “Super Size Me” ou “Tiros Em Columbine” (Morgan Spurlock e Michael Moore, respectively). Mas o dado novo e interessante a notar é como os próprios americanos estão incorporando essa nova agenda e fazendo dinheiro com isso ao utilizá-la como ingrediente principal de suas produções que protagonizam a lista dos mais vendidos, assistidos e comprados dos últimos tempos.
Outras críticas parecidas, embora em outro tom e intensidade, também são encontradas em “Queime depois de Ler”, dos irmãos Coen, ou até em High School Musical III, onde a loirinha-patricinha-típica americana, Sharpay Evans, é deprezada ao tranformar num hit de rádio com piruetas e coreografias tipicamente americanas a música do querido casalzinho Troy Bolton e Gabriela Montez.
O ALTERNATIVO É O NOVO MAINSTREAM
Toda essa rede de “anti-americanização” e “anti-status-quo”, dá brechas para o surgimento e fortalecimento de marcas e potências que surgem dentro desse novo paradigma. Tomemos o Google como exemplo: ícone da cultura mais livre, da possibilidade, da nova cara da web e até do anti-corporativo. Hoje, no entanto, o pano começa a cair, há os primeiros protestos contra o servidor que antes parecia Deus, além de ele próprio começar a dar panes (vide reportagem na revista INFO de Abril/09 e os protestos de moradores que se sentiram lesados pelas fotos do novo sistema do Google Earth que mapeia bairros inteiros).
Aqui no Brasil, temos um exemplo que acho interessantíssimo. Há certo tempo a coca-cola lançou um suquinho chamado “Laranja Caseira” e que parece representar toda essa cultura do “anti-industrial”. Com uma embalagem que lembra produções caseiras e um nome “genérico” (e, por causa disso mesmo, altamente memorável), o suco surpreende por colocar a escala industrial inserida num paradigma caseiro, e conseguir vender isso de forma fenomenal.
Tudo isso nos coloca a pensar: será que o mainstream, aquela linha principal seguida pela sociedade, realmente deixou de existir como afirmam os seguidores da idéia do “narrowstream”, ou ela apenas saiu da esfera da cultura “industrial” e caiu para os valores do “individual”, do “pessoal”? Os americanos, especialistas na arte de lidar com a mídia e com o público já entenderam isso muito bem, e estão conseguindo manter sua força nas bilheterias e nas vendas. Isso nos mostra que, como no jogo de futebol, continuamos falando do mesmo esporte, apenas o time é que virou a casaca.
iniciativa iAZ f1.0