por RENATO FIGUEIREDO.
23.nov.08
Continuando nossa série de posts sobre o elBulli, agora vamos falar a respeito do processo de trabalho do restaurante – e de todo sonho envolvido em trabalhar num lugar como esse. No livro “A Day at elBulli” é possível ver um pouco mais dessa ‘rotina’ e do ambiente em que ela acontece. A começar pelo ambiente totalmente sussa, com impressoras HP bem normaizinhas, computadores beges (“Sorry, no Apple”), e mesinhas ‘ok’, o elBulli surpreende quem esperava algo mais sofisticado – ainda mais publicitários fancies e descolados como nós ou os leitores desse blog.
“Se todo dia tenho um problema, é porque não tenho problema”, diz Ferran, num dos lindos encartes especiais em papel sem cola (leia-se: sulfite) no meio do livro, se referindo ao fato de que passa várias segundas-feiras resolvendo problemas contábeis e burocráticos. “Organização é fundamental para criar”, diz ele.
Dada a parte “get real” do elBulli, vamos para a “aspiracional”: o restaurante funciona apenas durante 5 meses por ano – período que coincide com a duração do verão Europeu. Nos outros 7, Ferran e sua equipe saem ao mundo caçando novos ingredientes, técnicas e referências para montar seu menu degustação. É uma tarefa de constante atualização.
Ah, se tudo na vida fosse como no elBulli, em que em apenas uma semana eles já conseguem saber quem serão os 7.500 clientes que lhes garantirão a verba para continuarem de pé, e teriam 7 meses para viajar pelo mundo em busca de referências para seu trabalho...
Parece legal e onírico, né? A má notícia é que a tarefa não é apenas cor-de-rosa. Imagine o hard-work de sair ao mundo à caça de tantas coisas diferentes, as várias línguas que se deve saber, e o suor e a mente aberta que se deve ter para conseguir tudo isso?
Mas a boa notícia é que exemplos como o dele começam a abrir as portas para que a “criatividade e o trabalho inspirador” sejam cada vez mais presentes no cotidiano de quem almeja trabalhar com isso. Assim como tudo nesse mundo de hoje, o trabalho criativo também está mudando – e parece se tornar uma verdadeira profissão. Inspiração, referência e sensibilidade, antes talvez vistos como “dons”, ou o tipo de coisas que a gente tinha “sem querer”, hoje são bens requeridos pelas empresas, marcas e pela própria sociedade.
Na era da inovação, da implantação de processos abertos à inovação dentro de empresas ‘ex-quadradas’ e do surgimento de escritórios especializados justamente nessa tarefa de inovar, a criatividade pode estar virando cada vez mais um objeto de estudo científico e metodológico – e muito esforço racional está ou deverá se dirigir a ela.
Se por um lado tudo isso é bom porque começa a lidar com algo inevitável e que, de certa forma, nós criativos sempre almejamos; por outro, levanta questões como o fato de que a verdadeira inovação deve surgir espontaneamente, e não ser buscada de um modo racional. Acontece que com o mundo querendo cada vez mais inovação, surpresa e imerso nessa “ânsia de sentir”, ganha quem souber melhor trabalhar com isso.
Achar um meio epistemológico de investigar e trabalhar com a criatividade, ao invés de moldá-la aos temíveis quadradinhos, tabelas e numerozinhos sempre utilizados para explicar fatos científicos, parece ser outro dos desafios de nosso século. É hora de transpirar um pouco mais.
iniciativa iAZ f1.0