post.it.e

#1 elBulli, Cozinha e Criatividade Contemporânea

O Restaurante mais famoso do mundo e sua equipe nos dão lições a respeito da nova busca criativa do momento – e isso tem tudo a ver com planejamento publicitário.

 

NOTA DO EDITOR: O elBulli, suas criações, sua marca e seu fundador e sua fama são ícones e prolíficos starter de reflexões para nós – e que vão gerar uma série de posts que você poderá acompanhar aqui a partir de hoje. (Inspirado no livro: "A Day at elBulli". Phaidon Press)

por RENATO FIGUEIREDO.

23.nov.08

Para quem não conhece, o elBulli é o restaurante do chef catalão Ferrán Adria, que foi eleito pela revista Restaurant Magazine como o melhor Restaurante do Mundo.

Tanto o local como o chef ganharam a fama e a curiosidade das páginas dos mais diversos jornais, blogs e revistas all-over-the-world. E não foi só pelos mais de 500.000 pedidos de reserva frente a míseros 7.500 lugares oferecidos anualmente. Ferran Adriá e sua equipe subvertem a lógica de muitos pratos, escancarando um novo paradigma criativo da contemporaneidade.

Famoso por suas criações inusitadas, o restaurante foge do consagrado padrão francês desconstruindo ingredientes e pratos ao criar ‘guloseimas’ como sorvete de gorgonzola, caviar de melão, risoto de grapefruit (no qual o “arroz” do prato são os próprios gominhos da fruta) ou até caipirinha frozen feita com nitrogênio – ingrediente esse que foi a cereja no bolo para fazer a fama do criativo chef.

Todo esse movimento nos coloca a observar como o nosso tempo está tão forte no conceito e no pensamento conceitual. Hoje em dia falamos em conceitos, paradigmas, epistemologia, ‘pós-moderno’, que parece que estamos indo além do material, além do previamente definido, chegando na essência para buscar novas fronteiras.

POLPAS INTELECTUAIS

A cozinha contemporânea de Adriá subverte receitas e brinca com as “polpas intelectuais” de seus ingredientes – e não seu “significado histórico” – a fim de alimentar não apenas nosso corpo, mas nossa Ânsia de Sentir, como muito bem intitularia um amigo meu ao falar desse fenômeno do nosso tempo.

Quem disse que sorvete tem que ser doce, que caviar são apenas ovas de peixe ou que pirê é sempre de batatas? A cozinha do catalão nos encanta e nos desperta atenção talvez por escancarar outras sensações com as quais até então estávamos desacostumados. Entender os conceitos, e brincar com eles, parece ser a raiz da criatividade e dos desejos contemporâneos.

Transforma-se, brinca-se e reorquestra-se sentidos. Nessa tarefa, nossa matéria-prima não são mais os objetos e o mundo palpável, mas sim o que eles representam. O elBulli nos ajuda a enxergar a “dessubstancialização” das coisas, em que extraímos da função e idéia prévia que tínhamos do objeto/ingrediente algo maior que ele próprio. O conceito é que vira substância: e é esse nosso principal ingrediente. É quem nos dá asas e matéria para criar o novo.

PLANEJAMENTO CRIATIVO

Se fôssemos fazer um paralelo entre culinária e publicidade, poderíamos talvez observar que a criatividade de Ferran Adriá e sua equipe não está tão próxima da criação quanto do planejamento. Num patamar muito mais conceitual, a criatividade e exuberância do cozinheiro nos cativa e nos reflete uma nova busca conceitual/criativa e de pensamento de nossa época.

Para quem não conhece o cotidiano da Publicidade, grosso modo, a criação é a responsável por criar as peças que você vê por aí, os slogans, os textos, as imagens e tudo o mais; enquanto o planejamento fica com a parte estratégica, entendendo e desvendando desejos e necessidades do consumidor e do mercado. Historicamente, a criação sempre teve muito mais força, peso e presença numérica nas agências – mas hoje em dia o cenário se altera um pouco.

E é justamente aí que podemos entender o crescimento da importância do planejamento. Mais do que tudo, a necessidade de um planejamento criativo começa a se fazer mais evidente. Afinal, tudo o que a gente faz é lidar com conceitos o dia inteiro: e é daí que pode surgir o novo. É hora de alimentar mais nossa “polpa intelectual”.

 

P.S: Fica por último a dica do livro que nos inspirou tudo isso. “A Day at El Bulli” mostra um pouquinho da rotina do restaurante, dos bastidores e do resultado de todo esse processo – tudo ilustrado com instigantes fotografias. O design do livro é super contemporâneo, e, se não é da Taschen é da Phaidon, outra que tem design e livros muito admiráveis, e o preço é até razoável para uma brochura de 400 páginas de fotos e impressões coloridas de altíssima qualidade: cerca de r$130 pilas para quem é cliente “Mais Cultura”, na, lógico, Livraria Cultura. Dica: aproveite depois para passar no Viena e tomar um Lavazza – o mesmo café servido no El Bulli.

P.S. 2: Se quiseres ver alguns dos pratos servidos na temporada 2008 do elBulli, vá para o blog da Alexandra Forbes:
http://viajeaqui.abril.com.br/indices/conteudo/blog/82906_comentarios.shtml?5883912

pensamento, elbulli, restaurante, criatividade, planejamento

iniciativa iAZ f1.0