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'Complex' is the new black! A morte do simples.

Depois da epidemia do simples, entenda porque a idéia da 'simplicidade' está sendo deixada de lado e descubra como falar do complexo de um jeito... simples?

por RENATO FIGUEIREDO.

23.Nov.09

Não há muito tempo, a onda da simplicidade, do clean e do minimalismo invadiu as mentes, salas de estar, design de objetos, escritórios de publicidade e páginas de revista de todo o globo.

Livros como os de John Maeda (“As Leis da Simplicidade”) exaltavam sem equívoco a simplicidade como uma chave para o século XXI, e a panacéia (remédio absoluto) para todos os problemas do homem. Insultados eram aqueles que estavam “complicando demais as coisas”.

O design minimalista, a ditadura da imagem, o “não” aos textos, o sim absoluto às palavras-conceito, e a master-especialização profissional – ao invés de abordagem holística: quanto mais simples, resumido, objetivo e claro possível, melhor. A vida parece ter ficado condensada a imagens e saberes reduzidos – e talvez vazios demais para lidar com a realidade. Pensamentos, sentimentos e conceitos são obrigados a se condensarem em palavras, imagens ou slogans que, de tão amplos, mal conseguem ultrapassar as barreiras do clichê.

Hoje, no entanto, o homem parece começar a perceber a fraqueza e as mazelas do simples, o “sem plicas” (significa “sem dobras” segundo a etimologia da palavra). Seria natural, portanto, que após tanta falação e desgaste a respeito da idéia do simples, uma nova onda tomaria conta da sociedade.

E é o que parece estar acontecendo. Entra em cena a complexidade – e todos os desafios que tal tarefa nos traz.

EU COMPLICO, TU “COM PLICAS”

Complexo nada mais é do que “tecido junto”, “com plicas”, ou com desdobramentos ulteriores. A idéia de complexidade coloca em pauta o dilema entre o uno e o múltiplo; entre o singular e o plural. Sem desdobramentos, conexões e resumido a uma unicidade muitas vezes despedaçadora/mutiladora, o simples parece não dar conta da multiplicidade e onipresença virtual de um mundo cada vez mais em rede.

Segundo Edgar Morin, um dos precursores do estudo sobre o Pensamento Complexo, esse paradigma único da simplicidade (o qual, aliás, teve enorme influência em nossa busca e organização do conhecimento científico até hoje), mutila o saber, mutila o homem e nos conduz a uma ‘inteligência cega’. Por ser incapaz de conceber a interação entre os ‘fatos’, as coisas, e criar moldes e especializações reducionistas, ficar preso no paradigma do simples é ter uma esperteza falsa.

GET COMPLEX

O mundo já começa a dar seus sinais de estar se aproximando da ‘complexidade’. Ciências como a antroposofia, a física quântica e até campos como o design prezam por entender e estudar melhor a interação de sistemas isolados – ou melhor, de conceberem esses sistemas como coisas únicas e inseparáveis (a antroposofia, por exemplo, é uma ciência que pretende tratar do homem e seu espírito como um todo – e não como sistemas separados).

Livros como o da designer norte-americana Ellen Lupton, que coloca os “Novos Fundamentos para o Design Gráfico”, onde texturas, transparências e imagens complexas comportam o Zeitgeist* e o modo de fazer da atividade atual, já nos atentam para uma complexidade que está ditando o rumo da expressão gráfica humana está tomando. (*para os alemães; uma palavra que indica ‘o espírito do tempo’).

Na programação WEB, CSS, Flash, PHP etc, a idéia de complexidade e sistemas intradependentes também facilita a vida de programadores e usuários – sem elas, os imensos portais, weblets (aplicativos web 2.0) e vários sites seriam quase inimagináveis.

PARADOXO VISÍVEL

No entanto, logicamente, reside a dúvida: como falar do complexo de modo a não cair no terrível território do inexplicável, do emaranhado, da desordem, ambigüidade e incerteza – para usar as mesmas palavras de Morin?

Está aí um dos desafios de inovação do século XXI. É preciso testar, invoar, pensar – não abandonar os ganhos tido com o pensamento “simples” ao trocar todos os ganhos com a idéia de simplicidade e voltar atrás ao pensamento complexo “anterior” (se é que ele existe). ASSIMILAÇÃO, e não descarte, parece ser a palavra de ordem de nosso início de século.

Assim, a união do pensamento complexo com a eloqüência do simples parece bem se resumir a uma imagem até surpreendente que propomos trazer aqui, por nossa conta: a de um comprimido de antibiótico ou vitaminas.

Como num “comprimido”, idéias múltiplas e com diferentes ações e desdobramentos podem ser unidas através de um envelope, de um complexo, que possibilita sua assimilação por um organismo. É, a princípio, a melhor imagem que nos traduz a imagem do que é uno (um comprimido) e múltiplo (vários princípios ativos) ao mesmo tempo.

Mas ainda há muito a pensar, ler e se discutir. Aguarde mais publicações sobre esse tema – pois ele é muito interessante. Enquanto isso, divirta-se com o livro “Introdução ao Pensamento Complexo”, de Edgar Morin, publicado pela Editora Sulina.

pensamento, Zeitgeist, acadêmico, complexidade

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