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O café, a cidade e seus trabalhadores.

A entrada do café – tanto a bebida quanto o local – numa nova época áurea traz consigo dois reflexos de novas tendências na cidade: a convivialidade urbana e os novos formatos de trabalho.

por RENATO FIGUEIREDO.

02.fev.09 @N'oCafÉ

O café chega, a crema está perfeita e por isso eu sinto o cheiro de chocolate, café, cidade, inspiração e felicidade – e tudo de um jeito espresso. Limpo meu paladar nos 45ml de água com gás num copo Nadir No. 27, e o garçon diz, após completar a mesa com o dispenser do açúcar:

_ Bom café ;)

Café hoje é, definitivamente, uma experiência maior que a xícara. Um ritual, um prazer diário, uma dose de inspiração e abertura de possibilidades para idéias, papos, namoros e lógico – negócios.

A cultura do espresso cresceu, atinge jovens (teenagers), crianças e ultrapassa mesmo que lentamente, os limites das capitais. Os cafés, que lá pelos anos 20 e 30 tiveram sua glória junto com modernismo e Oswald de Andrade aqui e Tango e Jorge Luís Borges no Tortoni, hoje parecem entrar em nova época áurea.

O espaço imaginário do café, muito bem tematizado pela ‘matriarca’ dos cafés contemporâneos – a Starbucks – é o 3rd place dos mais importantes da cidadania urbana de hoje. Nem a casa nem o trabalho: o café é um terceiro lugar de convivência das pessoas, trabalhadores, jovens, amigos e namoradores. Dentro de uma releitura mais moderna, o café (tanto o ambiente como a bebida) se incorpora a algumas das tendências mais interessantes da sociedade atual.

CASAS MENORES, LARES MAIORES

A primeira delas é a nova convivialidade urbana do cidadão metropolitano. Novos locais de convivência que emergem no Japão – como os karaokês e os kombinis (lojas de conveniência) – são exemplos de como as pessoas estão saindo de seus ambientes privados e freqüentando mais os espaços públicos. Elas parecem estar assimilando outros locais a seus “territórios de existência” – afinal, lar (home) não é só sua casa (house). Com o aumento do número de pessoas morando sozinhas, a diminuição na metragem de apartamentos e a hiperpopulação urbana, “os espaços públicos são apropriados e se tornam interiorizados e os espaços privados são reduzidos ao mínimo” (1).

Aqui no Brasil, os cafés parecem representar o melhor lugar dessa nova convivialidade. Não só para conversar ou tomar um rápido expresso depois do almoço ou da reunião – os cafés também estão virando pontos de flerte mais sofisticados e menos vulgares do que os bares, e estão se revelando também excelentes locais de trabalho.

FALTA DE ESTRUTURA OU DE INICIATIVA?

O trabalho, aliás, é outra vertente da vida urbana que sofre mutação no início do século XXI – e tem importante ligação com os cafés. Buscando maior felicidade, liberdade e inspiração para trabalhar – a onda de trabalhadores autônomos, os também chamados freeagents, freeformers, co.workers ou mesmo freelas (freelancers), estão tomando conta do país e das “cidades urbanas” do globo.
E os cafés têm papel importantíssimo nessa dinâmica, já que servem como local de trabalho, reunião, inspiração e até convivência para esses trabalhadores modernos.

Uma empresa chamada MaoJeckel, que produz apresentações para empresas em Power Point, por exemplo, não tem sede. “Por que ter um local físico? Por causa do telefone? Temos celulares. Computador? É um laptop. Por causa da conexão? Todos os locais têm wi-fi. E o cafezinho? Ah, esses locais têm mais cafés que uma empresa”, declara o fundador, Mauro Jeckel, à revista ResultsOn (http://www.resultson.com.br/NovoProjeto/revistaEspaco.php). Milhares de outras pessoas fazem suas reuniões, trabalho individual, atendimento a clientes ou mesmo ‘estudar para provas’, nos cafés. Cada vez mais isso é comum nas ruas de São Paulo e do interior.

Cada dia menos, a estrutura parece importar para abrir uma empresa: uma boa idéia na cabeça e um laptop na mochila resolve – quase – tudo. Apenas um ramo de negócios ainda podia ganhar muito se investisse mais em estrutura: os próprios cafés.

Pouquíssimos são os que estão se propondo a atender essa nova demanda de trabalhadores. Faltam desde tomadas próximas as mesas para ligar o laptop ou carregar o celular, iluminação e ergonomia mais adequadas, até cardápio personalizado para as necessidades desses ‘coffee-workers’. Alguns que, por acaso, ofereciam tomada em algumas mesas, estão tampando-as para evitar confusão entre clientes querendo trocar ou disputar mesas! Em seus modelos de negócio atuais, tal atitude é até compreensível: eles não estão preparados para atender essa nova demanda. Mas quem se aventurar a testar um novo modelo nesse mercado, parece ter muito a ganhar. Basta ter Iniciativa.

 

(1) P.S: Agradeço a querida amiga Rita Wu, que me ‘aplicou’ o artigo de Inês Moreira e Yuji Yoshimura, que traz as idéias da “nova convivialidade no espaço urbano”, citando os Kombinis e práticas no Japão. O texto está acessível no fabuloso ArquiTextos, em http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp206.asp

 

mercado, café, Zeitgeist, co.working, urbanismo

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