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Por uma Criatividade que não cria, constrói.

O novo compromisso da inovação na Era do Equilíbrio - essa era em que se exagera nos extremos, mas se preza pela busca do consenso e da “média” entre valores.

por RENATO FIGUEIREDO.

fev.09

Estamos na “Era do Equilíbrio”. Daí, nada mais natural do que experimentar e viver uma angustiante – mas libertadora – hibridização dos extremos.

Sejam extremos opostos na história, na moda, nos valores, na decoração, na comida ou em nossa rotina diária: vivemos flutuando entre o antigo e o surpreendente, entre o certo e o incerto, entre o light e o porre alcoólico.

Não estamos plenamente contentes com o que já conquistamos; as novas tecnologias também têm seus problemas, e estamos desiludidos com todos esses avanços. O velho não satisfaz mais e o futuro não é mais como era antigamente. Da regurgitofagia essencial que daí resulta (1), surge um resgate do passado, que agora aparece mesclado com as novidades em forma de híbridos, paradoxos e até gritantes contradições.

Alguns são ferrenhos a novas religiões, outros se dizem seguidores de sua própria fé, enquanto muitos não querem mais as desavenças e prisões do ‘pacote-casamento’ – mas quase todos continuam sonhando com um. Estamos hoje com o mesmo olhar blasé de uma vaca quando rumina no pasto, revivendo e re-analisando o passado e seus legados.

Atualizamos valores antigos, colamos um retalinho cool na colcha antiga perdida no armário, juntamos um Way-Fahrer com uma Diesel, uma Hering e um par de Havaianas. As meninas da rua Augusta desfilam uma echarpe da vovó com uma Melissa e os casais pelo Brasil afora criam um casamento sem papel, mas com cama de casal, closet compartilhado e buscar os filhos do marido na escola. Os rapazes da The Week são gays no fim de semana, mas mantêm a namorada para a vovó conhecer no Natal. Os trabalhadores da R. Funchal procuram um emprego de freelancer, mas rezam para conseguir um cliente fixo.

BUSCA SEM FIM

Buscamos eternamente a liberdade do equilíbrio, e sabemos que o equilíbrio perfeito desequilibra. Para quem vive na era do medo, da hiperinformação e das mil possibilidades – e por isso mesmo também uma era de competitividade angustiante – não há como ficar parado em equilíbrio. Procuramos nova medida entre coisas conhecidas, mas achar uma é parar. A cada dia, novos inputs nos colocam de novo no balanço e nós queremos sempre mais – e mais novo. Como numa moto ou bicicleta, só o movimento a frente nos mantém de pé – e só o desequilíbrio nos motiva a andar.

Mas estamos caminhando cegamente em direção a algo que já nem mais sabemos se existe. O futuro já não é mais como era antigamente; e sequer enxergamos que forma ele tomou agora – apenas pressentimos que ela possa ser pior do que imaginávamos. Nossa liberdade de valores não nos trouxe felicidade plena, nossa abertura com o mundo também trouxe raiva e descriminação, enquanto o desenvolvimento tecnológico caminha a passos autodestrutivos.

Agimos, no entanto, como se estivéssemos saindo em busca de um novo mundo, um novo território, desprezando muito do que estamos deixando para trás. Como numa ponte entre dois penhascos, estamos de pé numa corda bamba e precária em direção ao futuro, angustiadamente nos equilibrando. Enquanto isso, a ponta ‘2’ que sustenta essa corda já não é mais tão confiável.
Na medida em que tomamos tal consciência, – que percebemos que o futuro não existe, ou é pior que o hoje – a corda imaginária se arrebenta como uma ponte precária. Somos devolvidos bruscamente às terras baixas do território 1, no qual restou apenas a sombra, as ruínas e desgraças de um então passado corroído e abandonado. É daí talvez que volte com força o fanatismo, a discriminação, o ódio – e tantas outras coisas que achávamos ter começado a enterrar.
Antes que isso aconteça, porém, é hora de colocar mais força em aterrar o nosso caminho em direção à “segunda terra”.

RIQUEZA DO JÁ USADO

Crescer com o que já temos, e não abandonar o barco em direção de um novo terreno: temos que levar o ‘nosso’ conosco. Ao invés de sair em busca de formas totalmente novas, se desiludir com elas e acabar voltando com angustiada força para o passado, é hora de por a mão na massa e criar as bases em direção ao futuro.

Não parece ser hora de lançar uma corda em direção ao outro lado, mas usar os tratores para levar terra até lá. ASSIMILAÇÃO, e não descarte, parece ser a nova palavra de ordem.
Nossa antiga concepção de futuro era de carros voadores, coisas novas, e perene progresso tecnológico. A nova leitura de inovação, no entanto, pede mais uma re-elaboração do que já temos, do que criação de outros atrativos – seja em âmbito eletrônico, físico-químico ou social/artístico. O mundo parece ter chegado ao seu ápice – não é a toa que voltamos ao passado para recriar nossas melodias, nossos vestuários e estilos gráficos.

Nunca nossos esforços criativos tiveram tanto foco sobre o velho. E nunca estivemos talvez tanto em dúvida quanto ao futuro. É hora então, de debruçar mais sobre o presente, sobre o atual, sobre o possível. Num esforço contemporâneo, não é preciso mais vislumbrar o novo, mas achar maneiras de consolidá-lo, materializar o que já enxergamos e criar bases para mantê-lo sempre de pé. Parar de se iludir com um pensamento futuro infundado ou de se ancorar na nostalgia de um passado também utópico.

Não é verdade, entretanto, que nossa época não seja uma época de constantes e surpreendentes criações. Novos paradigmas criativos surgem, e são escancarados por inovadores como Ferran Adrià e sua equipe no elBulli, no qual o novo é criado a partir de incessantes combinações e desconstruções de conceitos, essências e ingredientes (2). Essa busca pelo novo, pela invenção, pela criação permanece intacta e muito viva, sim.

Mas, numa ocasião rara na história, o homem parece precisar se voltar mais para o que já conquistou – já que o futuro tão calcado no progresso e criações constantes, não se mostra tão confiável e atrativo quanto antes. Se continuarmos apenas baseados no antigo paradigma da ‘inovação’, podemos parar no meio de muito lixo, poluição, falta de recursos e infelicidade com valores e conceitos. Ao chegar lá, nossos atuais aterros sanitários poderão se tornar nossa maior fonte de matéria prima (já que teremos ‘secado’ todo o resto do planeta). Antes que isso aconteça, é hora de olhar para o que hoje já parece lixo e teimamos em desprezar.

Não é estar contra a criação do novo, mas a favor da re-elaboração de um trabalho iniciado – e que ainda não terminou. A questão gay ainda não se resolveu e é uma das mais díspares no mundo, a arquitetura não serve a todos como poderia, o design ainda está restrito a um ambiente de status e admiração, a urbe ainda peca em civilidade, a arte contemporânea ainda desliza para o estético/contemplativo, a mídia ainda está no limbo da manipulação do mainstream ea política passa para as empresas e se concentra mão de poucos. Questões polêmicas que a contemporaneidade se propôs a levantar – mas não conseguiu resolver – ainda carecem de muita lucidez.

NOVO PARADIGMA DA INOVAÇÃO

Hoje é preciso mais do que tudo um escopo social, uma resposta contemporânea em cada passo que damos em direção ao futuro. Não podemos mais valorizar tanto a criatividade que está apenas a serviço de provar a capacidade de ser original. O novo pelo novo, o progresso pelo progresso e sua natural evolução já não é mais tão requerido, nem admirado.

O Design, por exemplo, tende a nos seduzir com elementos, texturas, cores, materiais e combinações entre tudo isso antes nunca imaginadas. Mas ele cansa e já nem anima tanto, ficando cada vez mais difícil inovar aí. Temos que perceber é que a inovação e os desafios estão agora num terreno mais básico, mais diário, mais mainstream e mais sólido. Menos ilusão, menos sonho, menos aspiração. Mais usabilidade, mais ergonomia e praticidade – menos status pelo status.

Uma interessante exposição recente no Sesc da Avenida Paulista em São Paulo (3), mostra mais de 100 modelos de cadeiras criadas na Espanha durante os últimos anos. Dentre elas, cadeiras das mais variadas formas, materiais e composições – algumas até pouco resistentes para serem de fato usadas.  Na mesma época, uma revista (4) elege a cadeira número 14 de Michel Thonet, uma cadeira criada há mais de 100 anos e muito conhecida por todos nós, como o ícone número 1 do Design Mundial. Embora a exposição seja bastante inspiradora, a pergunta que fica é: a gente precisa de mais formas, mais funções, ou de novos equilíbrios entre as já existentes? Os nossos esforços industriais, criativos e intelectuais devem ir em direção do totalmente novo, ou da atuação do que sabemos para resolver as questões que já nos assolam?

Tanto no design quanto em muitos outros campos, parecemos ter evoluído mais no fazer, do que em sua utilização: o nosso saber e desenvolvimento ainda está longe de ter sido aplicado com eficácia para todos. O QDRUM, um galão redondo e extremamente prático para carregar água em regiões áridas e ermas como a África, mostrado numa exposição do Cooper Hewitt Museum (Design for the other 90%), nos berra o quanto o Projeto, o Design, ainda pode e precisa fazer pela humanidade. (5)

É hora de parar de acreditar no sonho, na ilusão, na estética. Nos anos 90, nos maravilhamos demasiadamente por um espremedor de sucos de Phillipe Starck, e pagamos dezenas de dólares por um objeto que é corroído pelo ácido do limão, e mal consegue extrair o suco de uma fruta – perdendo, talvez, para objetos com design tradicional, e hoje encontrados até em lojas de r$1,99. (6) Será que não é hora de também olharmos e sabermos valorizar e buscar o simples e mais banal?

Guardadas as devidas desculpas a favor de Starck (ele é sim muito bom, inspirador e criativo, e eu também confesso que gostaria de ter um desses espremedores, que não deixam de nos encantar), é hora de partir para valorizar o mais ‘mainstream’ e cotidiano também – e parar de se iludir, como crianças, com o estético que nem sempre nos diz muito – afinal, “that’s so 90’s”. Não é preciso abdicar dessa busca estética e criativa, apenas voltar nossa atenção para algo que ainda carece de se desenvolver. Como dissemos, assimilação é a palavra, e não o descarte. Phillipe e seus adoradores devem continuar muito vivos, graças a Deus, mas novos nomes devem e já estão surgindo – bem como novos paradigmas.

Chega de apenas projetar novas cadeiras – simplesmente com o intuito de criar o novo, o inusitado, o inovador, o nunca antes feito. Chega de provar que somos tão criativos – essa criação humana está destruindo e consumindo a nossa própria espécie. É hora de aplicar aprendizados, igualizar, construir.

Essa era da criatividade, da inovação, deve portanto logo dar lugar a uma era de construção, de doers, de executores. Parece ser esse o papel da criatividade no século XXI. Achar maneiras de melhor aproveitar o conhecido. Ela continua viva e mais do que necessária, mas muda seu escopo. Não precisamos tanto de mais invenções – precisamos antes de aplicar nosso conhecimento e esforço criativo para consolidar alguns sonhos latentes do século XX – e é aí que surgirá e nos depararemos com o novo.

 

REFERÊNCIAS E COMENTÁRIOS:

  1. Regurgitofagia é conceito de Michel Melamed e a construção da frase é inspirada em Dominique Quessada.
  2. Veja mais sobre o elBulli, eleito o melhor restaurante do mundo, em nosso outro post (http://www.postite.com.br/posts/ed01/elbulli1.html)
  3. Exposição SESC: 300% SPANISH DESIGN, em exposição no SESC da Av. Paulista (São Paulo, SP), de 05/09/08 a 11/01/09.
  4. Bravo 100 Objetos Essesnciais do Design Mundial, Ed. Abril, 2008.
  5. Veja fotos do QDrum logo na index de www.qdrum.co.za, e visite a exposição do Cooper Hewitt Museum (Design for the other 90%, http://other90.cooperhewitt.org/).
  6. Trata-se do espremedor “Juicy Salif”, de Phillipe Starck, citado também pela revista Bravo, 100 objetos Essenciais do Design mundial, 2008. Editora Abril. P. 47.
inovação, zeitgeist, criatividade, design

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