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"Não deixe a vida para o futuro. Mas deixe futuro para ela".

Numa época em que largar tudo, viajar e se mudar para Paris nunca esteve tão em alta no imaginário das pessoas, o filme ‘Foi Apenas um Sonho’, com Leo DiCaprio e Kate Winslet tem muito a nos ensinar sobre o limite entre a busca irrefreável por um sonho e o enfrentamento da realidade.

por RENATO FIGUEIREDO.

02.fev.09

_ É contemporâneo? Perguntei eu para uma amiga, já presumindo que filme de época não é minha praia.
_ Não, se passa em 30, 50, não sei. Mas é muito bom.

Baseado num romance de Richard Yates, escrito nos anos 60, o filme se passa na década de 50, e é sim, muito bom – e, muito além de um ‘filme de época’, traz uma discussão muito adequada para as buscas do homem de hoje.

Ao contrário do que algumas críticas colocam, o filme atuado pelo casal diCaprio e Winslet, e dirigido pelo marido desta última, o diretor Sam Mendes (também responsável pelo memorável “Beleza Americana”), não fala sobre casamento, nem mostra um amor que já se desfez. Mais do que isso, ele nos propõe a pensar sobre nossa busca sobre nossos sonhos e revoluções internas.

Reencontrando o casal histórico de Titanic, o filme conta com diCaprio no papel de um vendedor de computadores  (Frank Wheeler) da antiga fabricante Knox, e Winslet como uma atriz que não deu certo, e dona-de-casa frustrada (April Wheeler). Ambos moram numa casa típica americana (com cerquinhas brancas) e são o casal exemplo do subúrbio. Mas, no fundo, estão completamente incomodados com uma vida medíocre – e isso começa a lhes render brigas e problemas no trabalho.

Eis que April tem a idéia de irem para Paris: “viajar, largar tudo” e começar uma vida nova como secretária de órgãos do governo americano na França. Frank reluta um pouco, mas topa, e a decisão parece acender-lhe as chamas do coração, da inspiração – e até do amor.

Mas logo que comunicam aos amigos mais próximos, dificilmente encontram receptividade, já que todos sentem que a idéia parece um tanto infantil e imatura demais. Mas os Wheeler se angustiam muito ao viver o que chamam de o “vazio sem esperança” e mesmo sem o apoio total dos amigos, permanecem convictos em sua decisão, e a animação continua a tomar conta de seus corações – eles se sentem vivos como há muito não se sentiam.

Nessa onda de inspiração, Frank acaba ‘dando uma dentro’ em sua empresa, o que lhe renderia uma nova e tentadora proposta de salário. É aí que tudo começa a complicar.

Primeiro Frank, que, ao recusar a promoção e o maior salário, é confrontado pelo presidente da empresa, que lhe diz que a vida nos dá oportunidades para não levar uma vida “medíocre”, e que sábios são aqueles que sabem agarrá-las. Nessa hora, a expressão de Leo muda – numa atuação tão boa e cativante quanto a de Kate – e ele percebe que viajar poderia lhe tornar tão medíocre como ele imaginaria que seria se ficasse no emprego anterior.

Por fim, Kate – ela está grávida. O medo de não conseguir sustentar o novo bebê coloca em cheque a viagem, e ela cogita até tentar um aborto. A dúvida se instaura na família Wheeler – ir viajar era mesmo a melhor opção?

ENTRE O SONHO E A SEGURANÇA

Saber tudo o que você tem.
Saber tudo o que você precisa.
Saber como sobreviver sem tudo isso.
Isso é controle de inventário.

São alguns versos que Frank murmura durante uma cena de angústia e pensamento relutantes, ao final de um longo dia de trabalho.

É assim que depois de relutar muito, Frank parece ter tomado a decisão de abortar os planos – e não o bebê. Ele parece perceber que, frente ao novo cenário, ele também poderia viver novas coisas, e experimentar “sentir o diferente” que tanto procurava. Caso isso não desse certo ele poderia tentar Paris novamente – “afinal, a Europa continua lá”, como lhe diz seu vizinho. Já o caminho contrário (ir primeiro a Paris), não tinha volta.

No entanto, April se revolta contra a decisão do marido e, ainda num sonho infantil, chega a ponto de colocar sua própria vida em risco, praticando um abordo praticamente suicida. Para ela, sua infelicidade é mera função de sua geografia – o subúrbio americano (Segundo uma crítica sobre o romance de Yates, publicada no The New Republic (“Blaming the Burbs” LINK), escrita por Adelle Waldman). Ela quer mudar de qualquer jeito, e a decisão do marido de continuar na mesma vida lhe faz odiar Frank – mesmo que nós não acreditemos em suas palavras.

INCONFORMISMO

E é aí que chegamos num ponto crucial do filme e de sua ‘moral’. Me parece que tanto para Mendes quanto para Yates, existe um certo ar de aprovação e compreensão com a atitude inconformista de April. Eles querem propor a mudança de qualquer forma – e sair dessa vida medíocre dos “subúrbios americanos”.

Esse sentimento de não satisfação com a situação que lhe é imposta, e uma vontade irrefreável de não viver aquela realidade de maneira alguma – mesmo que todos os cenários indicassem que aquilo não era mais possível – é totalmente admissível quando entendemos o cenário em que a obra original, o romance de Richard Yates, foi escrito. Diz o autor num trecho disponível na Wikipedia:

“Eu quis encarnar esse espírito em April (…), esse espírito corajoso e revolucionário, dentro de uma época em que os americanos estavam em geral numa busca cega e desesperada pela segurança e seguridade a qualquer preço, como exemplificado politicamente pela administração de Eisenhower e a Caça as Bruxas de McCarthy.”

Naquela época, se resignar com a situação não seria o melhor desfecho para um filme ou uma obra que quisesse propor alguma mudança e crescimento para as pessoas. Desta forma, é natural que haja esse desfecho tão calcado em aclamar uma busca por algo diferente do estabelecido.

Para os dias contemporâneos, no entanto, é possível questionar um pouco a adequação de tal mensagem que aclama a busca incessante e infantil por algo diferente. Mendes, querendo ou não, parece propor ainda o mesmo que Yates. Tanto a tradução em português (“Foi Apenas um Sonho”), quanto uma das acepções do título original do filme e do livro, “Revolutionary Road”, parecem ser uma alfinetada no casal, que não consegue revolucionar nada em suas vidas. A mesma busca sem sucesso e a mesma ironia ocorre em “American Beauty” (Beleza Americana), em que os protagonistas de um ‘Sonho Americano’, perdem-se querendo e buscando algo mais.

MATURIDADE PARA FICAR

Lidar com essa busca é muito poderoso, mas a maioria dos personagens de Sam Mendes se perde ingenuamente nela. Mesmo que o diretor e o autor sejam conscientes disso, falta maturidade, sensatez, e buscar aprendizados nesses “caminhos revolucionários” pelo qual se tenta passar. E o desfecho é sempre trágico.

Mas é preciso conceber também que tais “caminhos revolucionários” podem acontecer e mudar nossas vidas mesmo estando parados ali, numa aparente “mesma situação”. Todo o movimento trazido pela idéia mirabolante do casal, mesmo que não os tenha levado a Paris, lhes trouxe muitos ganhos: desde uma promoção no trabalho até um melhor e mais intenso relacionamento amoroso.

Mesmo que estejamos ainda muito em busca de fugir de padrões, quadrados e regras que nos foram impostas e, como já dito, estejamos imersos numa vontade irrefreada por sentir e experimentar coisas diferentes, – o que não deixa de ser extremamente positivo – essa “Ânsia do Sentir” pode nos levar para um desfecho tão trágico como o de April – e desnecessário.

Se a Sra. Wheeler tivesse sido menos ansiosa para perceber isso – e como ela, há diversos de nós vagando tristemente e com cara de ‘chuchu’ pelos metrôs (para repetir uma amiga), carros e cantos de nossas casas e finais de semana; desiludidos com o rumo que a vida nos tomou – talvez pudesse perceber a grande revolução que ocorria em sua vida – e tanto o filme quanto seu título em inglês, numa certa leitura, nos mostram isso.

Em tempos de Ânsia, o que a gente precisa não é ficar achando que deu tudo errado, que “foi apenas um sonho”. As estradas revolucionárias da nossa vida às vezes podem não nos levar às sonhadas ‘Parises’. Mas estão ali, são a rua de casa – é possível fazer uma revolução parado, apenas com a força de um sonho.

 

 

P.S (1): Kate está horrível e irreconhecível no pôster mais divulgado do filme no Brasil. Ela é tão icônica e presente, e no pôster isso não está bem. ERRO imenso de propaganda, ao meu ver. Dá até desgosto olhar para o pôster – me deixa inquieto. No site oficial é possível ver outras fotos, aí sim, com a bela, atraente e comovente Kate.

 

P.S (2): Por fim, um interessante exercício.

Para quem ainda não viu, vai ver de novo ou ainda tem a seqüência na lembrança, experimente assistir agora cortando a cena logo depois que Frank sai para trabalhar, após o melhor café da manhã de sua vida – um na manhã seguinte a ter brigado com Kate e impedi-la de fazer o aborto. Imaginemos que o filme acabasse nessa cena.

O filme adquire outra dimensão, e, agora, em nosso final utópico, mostra que as revoluções da vida traz novos sentimentos e aquisições – o movimento dos dois fora capaz de juntar o casal, mesmo que eles ainda fossem levar um tempo para ficar bem de verdade (sem ser tão falsos como no dialogo do café, que, embora falso não foi nem um pouco frio e sem emoção).

Com esse final, teríamos, aí sim, um filme capaz de falar também de casamento – de como um casal que enfrenta junto os obstáculos maiores da vida, passando por fases ruins, pode ganhar muito ficando junto e se souber contornar os revezes. Se o filme se passasse nos dias atuais, eles já haveriam pedido o divórcio e partido para outra logo na primeira briga no carro – já que hoje é tudo mais fácil. As pessoas esquecem, entretanto, que essas facilidades trazidas pelo mundo atual não devem ser desculpa para não enfrentar uma situação ruim, às vezes. Ter perspicácia para perceber o quanto podemos trabalhar para manter uma estabilidade, família e coisas gostosas de que todos nós precisamos ter na vida para sobreviver, é a chave para não nos frustrarmos na nossa busca por nossos sonhos. É aí que acho importante dividir uma frase que pensei ao enfrentar o mesmo tipo de dilema: “Não deixe sua vida para o futuro, mas deixe futuro para ela”.

crítica, cinema, crescimento, sonhos

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