post.it.e

Eytan Fox e a Sensibilidade Masculina.

Walk on Water trabalha modelos de sensibilidade masculina heterossexual – e examina a idéia sobre a sensibilidade gay.

por RENATO FIGUEIREDO.

20.nov.08

Sabe quando você sai da sala de cinema, o dia está mais escuro, você mal se lembra que você é você mesmo, o vento é diferente, as pessoas são diferentes, o shopping é diferente? É mais ou menos uma das melhores sensações da vida adulta; a vida pára, o mundo pára, e tudo dá um reset. E os filmes do Eytan Fox são mais ou menos tudo isso.

O último dele que eu vi, “Andando sobre a Água” (Walk On Water, 2004), que passou hoje no Centro de Cultura Judaica, como parte do Festival Mix de Cinema sobre Diversidade Sexual, trata da história de um “agente especial” e daquilo que a gente poderia chamar de sua “descoberta de si mesmo”. Tudo muda na vida do durão Eyal (Lior Ashkenazi) depois de conhecer o garoto Axel Himmelman (Knut Berger), homossexual, e que passava férias em Israel na casa da irmã tendo o bonitão Eyal como seu “guia” de viagem disfarçado. Enquanto o garoto viaja para encontrar a irmã, o “guia-agente” na verdade o acompanha para descobrir o paradeiro do avô de Axel, que teria participado da eliminação de judeus durante a segunda guerra.

Com belas músicas do também israelita Ivri Lider, o filme do diretor que me atiça a curiosidade em conhecer Tel Aviv, cativa. “Walk on Water” fora talvez um dos filmes israelenses mais premiados e de maior sucesso na crítica, e é mais uma das belas obras do diretor de temática gay. Temática essa que não quer dizer apenas relações entre dois homens.

Uma quase despercebida frase durante o filme que me marcou ajuda-nos a enxergar essa sutileza. No carro numa das raras estradas arborizadas do belíssimo país, Axel põe uma música interpretada por uma mulher (não me lembro mais quem), e comenta com o “guia” Eyal que prefere as músicas com vozes femininas. Quando ouve músicas cantadas por homens ele diz “sentir falta de algo”. É aí que talvez possamos começar a entender a mensagem de Fox sobre aquilo que seria, talvez, a tal ‘sensibilidade gay’. Falta algo nesses homens tão graves, tão cheios de si e tão vazios de certa leveza.

Em parte, essa última afirmação possa ser talvez certo preconceito meu (descubro-me um grande preconceituoso em relação ao mundo hétero do qual eu nunca fiz parte realmente), mas é grande verdade para um mundo em que “homem não chora”. Na nossa história, o guia Eyal também não chora, e justifica-se dizendo que nascera com um raro problema nos olhos que o impedia de ter lágrimas.

Sua “secura” começa a ser umidecida pela dor de chegar um dia em casa depois de uma de suas missões e encontrar sua mulher morta na cama e uma carta indicando seu suicídio. “Você mata tudo o que está a sua volta” são suas palavras finais do texto para o marido. O peso dessas palavras permeia toda a transformação de Eyal, que encontra na água uma nova saída para sua liberdade. Kinneret, o mar da Galiléia no qual Jesus teria andado sobre as águas, é cenário para um diálogo entre os dois personagens, no qual o garoto se atira sobre o lago e diz para o agente que “basta estar com o espírito leve e puro que você conseguiria andar sobre as águas”. (veja o diálogo no site do IMDB, o International Movie Database).

A dureza dos homens que precisam se deixar amolecer, a morte como catalizadora disso tudo e o afeto como fermento para fazer crescer tal sensibilidade, são alguns dos temas, talvez, que estão dentro da atenção de Fox, e que tanto nos apraz desde “Yosser & Jagger” (2002). Dessa vez, o homem em questão é hétero, e não tem nenhuma relação com outro homem – mesmo que a gente fique torcendo o filme inteiro para que isso aconteça. Mas é isso que torna ainda mais bonito e interessante a obra em questão.

De “Yosser” à Bubble (2007), os filmes de Eytan, são fortes e poderosos. Agitam e mobilizam tanto em seus personagens quanto em seus expectadores, o peso da leveza de espírito, da sensibilidade e do afeto na vida do homem. Só assim que conseguimos, de fato, andar sobre a água.

crítica, cinema, masculino, eytan fox

iniciativa iAZ f1.0