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Pequena digressão sobre a arte contemporânea.

O que é arte? Algo belo, ou algo que expressa uma mensagem? O que é, afinal, o belo?

por RENATO FIGUEIREDO.

30.mar.09

Acabei de assistir peça de dança (contemporânea) de Juliana Moraes, que se apresenta no nono andar do Sesc da Av. Paulista com o espetáculo "3 Tempos num Quarto sem Lembranças" (de 21/3 a 12/4). É óbvio que o título nos remete a um tempo musical e a outras referências que sequer eu conheço - e por isso não poderia opinar. Portanto não pretendo fazer aqui uma crítica dessa peça que não me emociona na totalidade de seus 50', mas deve ser muito elogiada. A peça me anima a falar, entretanto, de algumas questões que se colocam acerca da Arte Contemporânea hoje.

O que me atraiu no folheto foi a descrição da busca de Juliana, que se inspirou em ícones diários como filmes pornôs e revistas femininas para montar o "arquivo de cada movimento". Nada de referências clássicas, herméticas, ou puramente referenciadas ao campo da arte: a artista usa como base para seu trabalho insumos captados de meios cotidianos. Essa é a arte Contemporânea de que gosto: que fala do atual, de nossas vidas, de nossa questões, nossas buscas e sentimentos. É ela que pode promover, exatltar e sucitar novas sensações em cada um de nós - já que trabalha com a mesma energia da qual partilhamos diariamente: os mesmos assuntos.

Sempre tive um interesse pelo contemporâneo. Teixeira Coelho lembra que toda arte, em seu tempo, é contemporânea, e diz alguma coisa sobre aquele "presente" em que se insere. No entanto, aquilo a que chamamos hoje "arte contemporânea" parece ir um pouco além dessa temática. Talvez porque nossa própria época pareça ser, julgo eu, uma das primeiras que se funda em pensar diretamente sobre seus dilemas "contemporâneos", de seu próprio tempo. Não somos românticos, não regretamos um futuro baseado num passado anterior; não somos modernos nem progressistas sonhando com algum futuro distante, sequer estamos deslumbrados com descobertas recém adquiridas. Não estamos fora de nosso tempo: pela primeira vez nos situamos no aqui e agora. Depois de tudo, nada mais é tanta novidade; e nossa criatividade se debruça a entender e trabalhar com coisas que já sabemos, mas sobre as quais ainda não temos respostas ou modelos que nos animem. Tecnologias, desgins, já não nos encantam tanto como faziam as primeiras maravilhas desses dois campos, e a questão que se põe agora é: o que tudo isso quer dizer?

Na arte, essa questão se resvala sob o dilema do "estético" versus o "comunicacional". Paramos para pensar qual é, afinal, o conceito, a função da arte: o que ela representa e "what it stands for"?

Tal dilema é dissecado pela contemporaneidade - e parece ser nele que se fixa o objetivo do trabalho atual. Não se opera nem se fecha esse dilema, mas trabalha-se em corpo aberto: ele é a plataforma criativa da arte contemporânea que conheço hoje. Não há respostas ainda: nossa criatividade funciona em busca delas, e seus produtos são meras continuações desse debate.

Se a arte contemporânea, como coloca Anne Cauquelin em seu "A Arte Contemporânea", se inscreve na esfera do "comunicacional" e não do "estético", qual é, afinal, a busca e o talento intrínseco ao artista? Ele deve fazer coisas "belas" ou propor discussões, temas, mensagens e sentimentos? Em outras palavras, para ser um artista, é necessário ter exemplar domínio estético (pintar como fotografia, combinar cores como estrelas no universo, dançar como pingos de água saltitantes ou atuar como a vida real), ou basta saber processar e exprimir uma idéia - seja isso feito de qualquer forma?

Muita gente já falou disso. Marcel Duchamp inicia a questão com seu Urinol, e Arhtur Danto - bem como muitos outros teóricos da arte contemporânea - a verifica em seu "A Transfiguração do Lugar Comum". O que faz, afinal de um objeto, um objeto de arte? Estar num museu, ser apontada como tal, ou ter certo caráter intrínseco? Por que um balde de tinta jogado sob uma tela e exposto ao público é arte, e o que eu faço em casa acidentalmente, não é?

Sou o primeiro a aclamar pensamentos como o de Anne - e dizer que a arte contemporânea, acima de tudo, deve situar-se num paradigma comunicacional. Mas assistindo a vários fenômenos da arte hoje, ponho-me a pensar um pouco em seu fazer, e aventuro-me aqui, mesmo não sendo um teórico e com parco conhecimento sobre o assunto, a fazer uma pequena digressão a respeito do fenômeno.

Quando eu penso que o "conteúdo expressivo" da dança de Juliana eram seus cabelos mexendo de um lado para o outro, sua respiração audível, o circular de um corpo fluido em torno de sua cama, ou sua descida controlada pela parede ao final da apresentação; oras, enfim, logo percebo que tudo isso não se trata de nada menos do que um imenso, rico, e planejado conteúdo estético.

E daí me lembro do conteúdo estético único de Carlos Contente, ou mesmo de outros artistas brasileiros expostos em "NOVA ARTE NOVA" (em cartaz no CCBB até 5 de abril) como Marcius Galan e sua "Seção Diagonal" (uma simulação de um vidro colocado num cubículo, onde na verdade, não há nada além de um trabalho com filtros de luz e tinta nas paredes e chão), ou mesmo Maraina Manhães (www.marianamanhaes.com) com sua âfora azul cyborgue, ou Rodrigo Braga e suas cenas matematicamente calculadas. E então entendo que estético agora, é algo que comunica. Mas continua sendo estético, sim senhor.

O que parece haver, portanto, não é um abandono da idéia do estético, mas sim um repensar de seu conceito. O artista é ainda um artesão que deve dominar forma, mas sem esquecer da função. A busca pela sua primazia ainda é forte; mas essa busca não tem mais uma finalidadade apenas no belo, mas sim num processo comunicacional maior. E isso é lindo - isso é, na verdade, o novo belo! Nosso tempo anseia em questões a serem respondidas, e o que anima nosso motor estético não é mais o equilíbrio, a perfeição, a imitação, o limpo, o luxo - partes da antiga noção do belo. Hoje, belo é ter respostas, é procurar discutir, é procurar entender, é dissecar conceitos; é tocar a alma e sentimentos contemporâneos através de materiais, matérias e assuntos também contemporâneos (ou fazer materiais antigos se tornarem contemporâneos). A arte contemporânea parece nada menos fazer do que atualizar nossa busca constante pelo belo - mesmo que esse belo seja diferente do de 100 anos atrás. Não queremos iludir, encantar: queremos discutir, exaltar e, mais do que tudo, repensar.

 

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