por RENATO FIGUEIREDO.
11.JAN.09
Neste fim de semana em São Paulo estava em dúvida se via a peça “Me Inclua Fora Disso - Uma Farsa Corporativa”, uma comédia sobre as relações de trabalho numa multi-nacional, ou Calígula, a peça de Albert Camus que encena sobre a vida do excêntrico imperador Romano. Acompanhado, acabei deixando a primeira e optando pela peça estrelada por Thiago Lacerda, e que está em cartaz até o dia 22 de fevereiro no SESC PINHEIROS (SP), situado à rua Paes Leme, num prédio com estacionamento para poucas vagas – portanto, chegue antes, se não quiser deixar o carro na tenebrosa ruazinha.
No entanto, não deixei de poder refletir também sobre as relações de trabalho com a peça dirigida por Gabriel Villela.
Como o próprio Camus coloca no texto que encontramos no folder da peça, trata-se de uma obra de ator e de diretor (Camus pensava em atuar nela), e não uma obra filosófica. Assim, repleta de falas decoradas e rebuscadas demais para um público mais mainstream (como eu), a peça não deixa de acrescentar emoção e certa reflexão na platéia – mas fica difícil tirar alguma “lição de moral” ou mesmo de acompanhar toda a história.
Ao final, Thiago se refere sem equívoco ao paralelo da peça com os recentes conflitos na Faixa de Gaza, lembrando a todos como o teatro nos ajuda e está presente na vida contemporânea. No entanto, creio eu que, para nós, brasileiros, existe um paralelo mais próximo que poderíamos ensaiar a traçar aqui e que, não deixa, em certa escala, de ser menos relevante. Falo do universo do trabalho.
Contando a história de um imperador para quem o poder vira um instrumento de satisfação e buscas pessoais para respostas impossíveis – e que, por isso, nunca virão – a peça mostra o quanto a insanidade do homem destrói e embriaga. Calígula é apaixonado pelo impossível, e nessa busca ele destrói, mata e envenena. A morte, para ele, é uma diversão.
E o que mais me chama atenção na peça é o amor entre o imperador e seu discípulo Scipião – não só pela natureza homossexual da relação, mas principalmente pelo fato de este último, mesmo tendo seu pai assassinado pelo imperador, continua a amá-lo e a compactuar-se com ele. Segundo o discípulo, ele e o imperador são parecidos: ele entende Calígula, compartilha de seu mesmo mal e busca insana – e por isso não consegue culpá-lo.
Ambos estão perdidos em direção a uma resposta impossível – e trilhando um caminho que só trará a auto-destruição – ou um suicídio superior (já que Calígula deixa-se assasinar ao final), como aponta Camus.
Num grau ‘menor’, mas não menos relevante, trago a história para nosso cotidiano e lembro que muitos de nós, movidos a chefes, sócios, clientes e compromissos, às vezes nos colocamos na mesma insanidade a ponto de compactuar com eles a morte de nossos “pais”, finais de semana, namoros e às vezes até vida pessoal – tudo em prol de um trabalho que, no final das contas, só traz a destruição.
Quantas vezes muitos de nós já não fizemos essas aberturas, perdemos finais de semana e outras coisas, em troca de um “ele tem razão, não tem jeito mesmo”, seja esse ‘ele’ nosso cliente, nosso chefe ou o próprio mercado?
Até hoje tive a sorte de não encontrar Calígulas pela minha vida, mas com certeza já me deparei com muitos Scipiões. É movido por eles, e por uma vontade epifânica e lúcida de Quereas (o único a empenhar uma luta assassina contra a excentricidade do imperador), que escrevo este texto – antes que caiamos na estranha embriaguez de Calígula.
iniciativa iAZ f1.0